A inteligência artificial (IA) deixou de ser um tema de ficção científica para se tornar um elemento estruturante do nosso cotidiano. Com a rápida evolução de modelos gerativos, como o GPT-4 e o Gemini, governos e blocos econômicos de todo o mundo aceleram discussões para definir regras básicas para o uso dessas tecnologias. No entanto, uma pergunta fundamental se impõe: quem deve guiar essa regulação?
Para os pesquisadores do Grupo de Pesquisa em IA do Centro Vaticano para a Cultura Digital, as diretrizes que moldarão as próximas décadas não podem ser decididas em círculos fechados. Eles defendem que o debate deve ir além de representantes das grandes empresas de tecnologia e da esfera política, exigindo uma participação direta da sociedade civil.
Essa é a reflexão central que conduz o novo livro da PUCPRESS, Encontro com a Inteligência Artificial: Investigações Éticas e Antropológicas, uma tradução inédita no Brasil organizada por Jordan Wales, Matthew J. Gaudet, Noreen Herzfeld e Paul Scherz.
Além do pragmatismo tecnológico
Em vez de propor uma rejeição à tecnologia ou uma aceitação cega, a obra defende a urgência de reorientar o progresso técnico a serviço da justiça social e do progresso humano. Os ensaios analisam de forma crítica o que o Papa Francisco denomina de “paradigma tecnocrático” — a tendência contemporânea de reduzir as relações humanas, o trabalho e a própria natureza a dados brutos a serem controlados ou mercantilizados por algoritmos.
Para fundamentar essa análise, o livro examina os impactos práticos da IA em quatro frentes principais do cotidiano:
- Trabalho e Economia: Os desafios trazidos pela automação e pela substituição da mão de obra em setores vulneráveis.
Democracia e Política: Como o controle e a falta de neutralidade dos algoritmos influenciam o debate público e a circulação de informações.
Educação e Aprendizado: A reconfiguração das salas de aula e do pensamento crítico diante de sistemas inteligentes.
Saúde e Medicina: Os limites éticos do uso de diagnósticos e decisões médicas automatizadas.
"A harmonia entre fé e razão demonstra por que a adoção da ciência e da tecnologia não entra em conflito com a oferta de recomendações morais claras para seu desenvolvimento e aplicação."
Jordan Wales, Matthew J. Gaudet, Noreen Herzfeld e Paul Scherz
A "Cultura do Encontro" na era digital
A saída proposta pela publicação fundamenta-se nos princípios da Doutrina Social da Igreja, propondo a construção de uma “cultura do encontro” como barreira contra o isolamento social causado pela digitalização em massa.
Para os organizadores, a filosofia, a teologia e as ciências de computação não devem caminhar distantes. Juntas, elas oferecem as bases morais indispensáveis para que governantes e desenvolvedores tomem decisões focadas no bem comum, protegendo a dignidade e a experiência espiritual do ser humano.
Encontro com a Inteligência Artificial se posiciona como um convite realista e maduro para pensarmos, coletivamente, que tipo de futuro estamos construindo com as nossas próprias ferramentas.
Sobre os organizadores
Jordan Joseph Wales é professor de Teologia no Hillsdale College. Doutor pela University of Notre Dame, é pesquisador do diálogo entre ciência, ética e espiritualidade com artigos em periódicos internacionais.
Noreen Herzfeld é professora de Ciência e Religião na Universidade St. John, especialista em matemática e ciência da computação. Autora do livro The Artifice of Intelligence (2023).
Matthew J. Gaudet é diretor de Programas e Iniciativas de Ética na Escola de Engenharia da Universidade de Santa Clara. Especialista em formação teológica e moral para engenheiros
Paul Scherz é professor de Estudos Religiosos na Universidade da Virgínia, com pesquisas focadas em ética médica, governança algorítmica e controle de riscos na modernidade.
Saiba mais sobre o livro
Título: Encontro com a Inteligência Artificial: Investigações Éticas e Antropológicas
Organizadores: Jordan Wales, Matthew J. Gaudet, Noreen Herzfeld e Paul Scherz